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A imagem mostra uma médica de meia-idade, com as mãos encostadas na testa, preocupada. Ilustra o texto sobre Perda da chance na responsabilidade civil médica.

Perda da chance na responsabilidade civil médica: O que significa

A perda da chance na responsabilidade civil médica pode causar grandes dúvidas, principalmente para médicos que começaram a atuar recentemente na profissão.

O importante é entender exatamente o que significa a responsabilidade civil médica para se proteger e atuar da forma mais coerente possível, caso necessário.

Neste texto, abordo o assunto respondendo os principais tópicos sobre o assunto, para que você, médico, entenda exatamente o significado de responsabilidade civil e quais são os principais procedimentos.

Acompanhe!

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O que é a responsabilidade pela perda de uma chance?

A responsabilidade pela perda de uma chance é um conceito jurídico fascinante que surge quando alguém, por um ato ilícito, retira de outra pessoa a oportunidade real e séria de obter um benefício ou de evitar um prejuízo.

O ponto chave aqui é que o juiz não julga o benefício final que foi perdido, mas sim o valor da oportunidade que desapareceu.

Imagine que você está indo para uma entrevista de emprego para uma vaga com um salário incrível. No caminho, um motorista imprudente bate no seu carro e, por causa disso, você perde o horário e a empresa desiste de te entrevistar.

  • O que NÃO é: você não pode exigir que o motorista pague todos os salários que você ganharia no emprego, pois ninguém garante que você seria contratado;
  • O que É: você perdeu a chance de disputar a vaga. Essa chance tinha um valor econômico, e é esse valor que deve ser indenizado.

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Perda de uma chance é dano moral ou material?

Na verdade, ela pode ser os dois, mas a sua natureza principal é de dano material.

A confusão acontece porque a perda de uma chance é considerada uma “terceira via” ou uma categoria autônoma de dano. 

1. Como Dano Material (o mais comum):

Na maioria das vezes, a perda de uma chance é tratada como dano material porque ela afeta o patrimônio da vítima.

Porque aquela oportunidade tinha um valor econômico que poderia ser calculado.

Ela fica em um meio-termo entre o dano emergente (o que você efetivamente perdeu) e o lucro cessante (o que você deixou de ganhar). Como é difícil garantir que você ganharia o dinheiro, indeniza-se a “chance” como um bem que integrava seu patrimônio.

2. Como Dano Moral:

A perda de uma chance pode ser classificada como dano moral quando a oportunidade perdida gera um sofrimento psíquico, humilhação ou angústia que vai além da perda financeira.

Exemplo: um erro médico que retira de um paciente a chance de uma sobrevida digna ou de cura. Aqui, o foco não é apenas o dinheiro gasto, mas a dor e a perda da esperança.

3. Acumulação (os dois juntos):

É perfeitamente possível solicitar as duas coisas no mesmo processo.

  • Material: pelo valor econômico da oportunidade perdida;
  • Moral: pelo abalo emocional de ter tido essa oportunidade ceifada por culpa de terceiros.

Exemplos de perda de uma chance

Para ficar bem claro, os exemplos de perda de uma chance costumam ser divididos em três grandes áreas onde o Judiciário brasileiro mais atua.

O texto continua após o vídeo.

O segredo aqui é sempre observar se a pessoa tinha uma probabilidade real que foi interrompida por um erro de outra pessoa.

No Direito do Consumidor e Prestação de Serviços:

  • O advogado que perde o prazo: imagine que você perdeu um processo em primeira instância, mas tinha argumentos jurídicos muito fortes para vencer no Tribunal (segunda instância). Seu advogado esquece de protocolar o recurso no prazo. Você não perdeu a causa ali, mas perdeu a chance de ter seu recurso julgado e possivelmente ganhar a ação;
  • Atraso de voo para concurso ou prova: você estuda dois anos para o exame da OAB ou um concurso público. O voo atrasa por culpa da companhia aérea e você chega no local de prova com os portões fechados. Você perdeu a chance de ser aprovado naquele certame específico.

Na responsabilidade médica:

Aqui o foco não é a morte em si (que seria dano morte), mas a redução das chances de sobrevivência ou cura.

  • Diagnóstico tardio de câncer: um médico negligencia exames e demora 6 meses para diagnosticar uma doença. Se o diagnóstico precoce dava ao paciente 80% de chance de cura e, devido ao atraso, essa chance caiu para 20%, o hospital/médico responde pela perda daquela probabilidade de 60% de cura que “sumiu” devido à demora;
  • Tratamento não oferecido: um hospital que deixa de oferecer um equipamento de ventilação ou um medicamento específico que, estatisticamente, aumentaria as chances de sobrevida de um paciente em estado grave.

No Direito do Trabalho:

Imagine que uma empresa faz todas as etapas de entrevista, pede para o candidato pedir demissão do emprego atual, manda ele fazer o exame admissional e, no dia de assinar a carteira, desiste da vaga sem motivo justo. O trabalhador perdeu a chance de manter o emprego antigo e a chance de iniciar o novo.

Qual é a regra geral de responsabilidade civil do médico?

No Brasil, a regra geral para o médico (pessoa física) é a Responsabilidade Civil Subjetiva.

O texto continua após o vídeo.

Isso significa que, para o médico ser condenado a indenizar, não basta o paciente ter sofrido um dano; é preciso provar que o médico agiu com culpa em uma de suas três formas:

  • Imprudência: agir sem cautela (ex: operar com pressa);
  • Negligência: omissão ou falta de cuidado (ex: esquecer uma gaze no paciente);
  • Imperícia: falta de conhecimento técnico necessário (ex: um clínico geral tentar fazer uma neurocirurgia complexa).

Exceção importante: em cirurgias puramente estéticas (plásticas), a obrigação costuma ser de resultado. Se o resultado prometido não for alcançado, a culpa é presumida. Já nos hospitais, a responsabilidade costuma ser objetiva (respondem pelo serviço, independentemente de culpa, se houver falha na estrutura).

Quais são os 4 elementos da responsabilidade civil?

Para que alguém seja obrigado a indenizar, esses quatro pontos precisam estar presentes simultaneamente:

  • Conduta: uma ação ou omissão humana (voluntária);
  • Culpa (ou Dolo): o elemento subjetivo (negligência, imprudência ou imperícia). Nota: Na responsabilidade objetiva, este item é dispensado.
  • Nexo de causalidade: o “fio condutor” que liga a conduta ao prejuízo. É a prova de que o dano aconteceu por causa daquela ação específica;
  • Dano: o prejuízo real (material ou moral). Sem dano, não há indenização, mesmo que tenha havido erro.

O que determina o artigo 927 do Código Civil em relação à responsabilidade civil?

Este artigo é o ponto central do dever de indenizar. Ele determina:

“Aquele que, por ato ilícito (arts. 186 e 187), causar dano a outrem, fica obrigado a repará-lo.”

O Parágrafo Único traz a exceção da Responsabilidade Objetiva. Ou seja, haverá obrigação de reparar o dano, independentemente de culpa, nos casos especificados em lei, ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua natureza, risco para os direitos de outrem.

Jurisprudência da perda de uma chance

A jurisprudência (as decisões dos tribunais) evoluiu para aceitar que a chance perdida deve ser “séria e real”.

Casos Reais Famosos no STJ:

  • REsp 788.459 (O caso do Show do Milhão): o tribunal entendeu que a pergunta sem resposta correta retirou da candidata a chance de ganhar o prêmio máximo. O STJ fixou a indenização em 1/4 do valor (25%), refletindo a probabilidade estatística de acerto;
  • Erro médico: os tribunais têm decidido que, se um hospital demora a atender um paciente com infarto e ele morre, não se indeniza o “valor da vida” (pois ele poderia morrer de qualquer forma), mas sim o valor da redução estatística da chance de sobrevivência que o atraso causou.

O que o médico deve fazer caso acusado?

Quando um médico recebe uma acusação de erro ou negligência, o cenário é de alta voltagem emocional e jurídica. 

A estratégia adotada nas primeiras 24 horas pode definir o sucesso ou o fracasso de uma defesa futura.

Se o médico for notificado por um oficial de justiça, pelo CRM ou percebe que um paciente/família está preparando um processo, ele deve seguir estes passos:

  • Manter a calma e o silêncio: não tente “explicar” o caso diretamente ao paciente ou aos advogados dele sem orientação. Qualquer mensagem de WhatsApp ou e-mail pode ser usada como confissão de culpa.
  • Preservar o prontuário: este é o documento mais importante. O médico deve garantir que o prontuário esteja completo, legível e arquivado com segurança. Nunca rasure ou altere um prontuário após o incidente; isso é crime de falsidade ideológica e destrói a credibilidade da defesa;
  • Reunir provas auxiliares: guardar cópias de exames, registros de horários de atendimento, prescrições e nomes de testemunhas (enfermeiros, técnicos ou outros médicos) que estavam presentes;
  • Notificar o seguro (se houver): se possuir seguro de responsabilidade civil profissional, o médico deve avisar a seguradora imediatamente para não perder o direito à cobertura;
  • Acionar a Assessoria Jurídica: antes de responder a qualquer intimação, deve-se consultar um especialista em Direito Médico.

Qual o papel do advogado nesse caso?

O advogado no Direito Médico não é apenas um acessório; é um profissional que atua como um gestor de crise e um tradutor técnico-jurídico.

O texto continua após o vídeo.

A. Na Defesa Técnica (Processo Judicial):

  • Desconstruir o nexo de causalidade: o advogado tenta provar que o resultado negativo foi uma intercorrência prevista na literatura médica ou uma reação do próprio organismo do paciente, e não uma falha do médico;
  • Indicação de assistente técnico: o advogado não entende de medicina, então ele contrata um médico perito (assistente técnico) para acompanhar a perícia judicial e formular quesitos (perguntas técnicas) que ajudem o juiz a entender que não houve erro.

B. Na Defesa Ético-Profissional (CRM):

O advogado atua no Conselho Regional de Medicina para evitar que o médico perca o registro profissional (cassação). Ele garante que o devido processo legal seja seguido, focando na ética e na conduta humanizada.

C. Estratégia de “Perda de uma Chance”:

Se o caso envolver a teoria que discutimos antes, o papel do advogado é:

Argumentar que a chance perdida não era séria ou real.

Provar que, mesmo se o médico tivesse agido perfeitamente, o resultado final do paciente seria provavelmente o mesmo devido à gravidade da doença.

Conclusão

Agora as principais questões sobre a responsabilidade civil médica estão reunidas neste texto. Espero ter auxiliado no entendimento de uma questão tão importante.

É extremamente valioso que o médico se proteja, agindo com calma e, de preferência, contando com o auxílio de um advogado especialista em Direito Médico para evitar maiores dores de cabeça.

A prevenção, acredite, pode fazer toda a diferença! 

A responsabilidade civil médica é um assunto importante que merece toda a atenção e que seja tratada com responsabilidade.

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Marcela Cunha

Advogada, OAB/SC 47.372 e OAB/RS 110.535A, sócia da Koetz Advocacia. Bacharela em Direito pela Faculdade Cenecista de Osório – FACOS. Pós-Graduanda em Direito Previdenciário pela Escola Superior da Magistratura Federal do Rio Grande do Sul (ESM...

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A imagem mostra um médico, de jaleco, olhando para a câmera com uma expressão séria. Ilustra o texto sobre defesa médica hospitalar.
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